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Livro mostra história da primeira voz de São José

'A Primeira Voz da Cidade', do jornalista e escritor joseense Ricardo Santos, mostra a comunicação na cidade nas décadas de 30 e 40

Da Redação, publicado em 10/06/2026 e atualizado hoje.

A trajetória de desenvolvimento urbano, econômico, tecnológico e cultural de São José dos Campos, especialmente entre as décadas de 1930 e 1940, é tema do livro “A Primeira Voz da Cidade”, do jornalista e escritor joseense Ricardo Santos. A obra destaca a relação entre o crescimento do município e o papel da imprensa na época.

O título faz referência à emissora pioneira do rádio joseense, a P.L.1, criada em 1937 para informar, divertir e apoiar a população a partir de um sistema de alto-falantes instalado em um sobrado na esquina da rua XV de Novembro com a Sebastião Hummel.

A estação precursora da radiofonia local é o fio condutor dessa história que se passa durante o período de censura do Estado Novo, instalado pelo presidente Getúlio Vargas. Publicada pela Somos Editora, a obra reúne personagens, cenários e acontecimentos pouco conhecidos que contribuíram para a formação cultural do município. O livro também retrata o processo de transformação da cidade, que deixou de ser referência no tratamento da tuberculose para se consolidar como um dos principais polos de inovação do país.

O Brasil iniciava naquele momento profundas mudanças diante da crise econômica e conflitos globais, ao mesmo tempo que identificava cidades estratégicas para receber investimentos que levariam a um novo ciclo de crescimento do país. São José dos Campos foi o município do Vale do Paraíba mais beneficiado pelas novas políticas federais, em razão da sua localização privilegiada, amplo território inexplorado e articulações políticas.

“São José dos Campos ficou à margem do desenvolvimento que a maior parte da região viveu durante o período Imperial e da República Velha, mas o jogo começou a mudar em meados da década de 1930”, lembra o autor. “Enquanto a cidade recebia recursos e preparava bases sólidas para se tornar um polo tecnológico, a emissora de alto-falantes exercia a função social de entreter e informar a população”, complementa.

Por intervenção estadual, um decreto assinado em 1935 transformou a cidade em uma estância climática e hidromineral, e a gestão municipal passou a ser realizada por prefeitos sanitários nomeados para administrar as verbas destinadas à reorganização urbana, higiene pública e modernização. O período de mais de duas décadas dessa fase sanatorial curou milhares de doentes e deixou como legado obras de infraestrutura, indústrias, projetos educacionais e o campo de aviação.


Instagram oficial do escritor de São José.

Pelos microfones da estação retransmissora passaram políticos, empresários, autoridades, jornalistas, poetas e artistas que contribuíram para o crescimento do município e iriam posteriormente fazer sucesso pelo Brasil. Paulo Lebrão, fundador da P.L.1, por exemplo, trabalhou depois com o jornalista Assis Chateaubriand na inauguração da TV Tupi em 1950, a primeira emissora de TV brasileira.

Em setembro 1946, a maior parte da equipe do alto-falante foi transferida para a recém-inaugurada ZYE-5 Rádio Clube, que recebeu a primeira outorga de concessão de rádio de São José dos Campos e, também, funcionava na rua XV de Novembro.

A pré-venda do livro acontece no site da Somos Editora (A Primeira Voz da Cidade - Somos Editora), antecedendo a noite de lançamento marcado para o dia 26 de junho, a partir das 19h, no Restaurante Amicci, na Av. Anchieta, 225, em São José dos Campos.

Emissoras de alto-falantes

Na primeira metade do século XX, a propaganda local por meio de alto-falantes era uma prática comum e um dos primeiros meios populares de comunicação eletrônica no Brasil. Embora tenham perdido espaço com o surgimento das rádios AM locais, esses serviços persistiram por muitas décadas depois em pequenas cidades e comunidades, sendo uma peça fundamental na história da mídia brasileira.

“Antes da popularização do rádio, as cornetas instaladas em postes, coretos, igrejas ou estabelecimentos comerciais eram a única forma de acesso à informação eletrônica”, comenta Ricardo Santos. “Hoje, as tecnologias mudaram e saímos do alto-falante para a era digital, mas a essência de se fazer comunicação com criatividade e credibilidade permanece a mesma.”

A programação dessas estações incluía notícias locais, notas de falecimento, radionovelas, humor, música e intensa propaganda comercial local. Sua função social era ser uma espécie de 'rádio comunitária' primitiva, que animava o dia a dia e servia de ponte entre o comércio e os moradores, com transmissões geralmente de manhã e ao entardecer. Ao cair da noite, o sistema de som era acionado para musicar o footing – um passeio público que consistia em ter mulheres e crianças andando pelo meio da rua, enquanto os homens observavam na calçada.

Em São José dos Campos, a P.L.1 foi o principal palco cultural e político, tendo passado pelos seus microfones nomes como o advogado Ganot Chateaubriand (irmão do empresário Assis Chateaubriand), o maestro Fego Camargo (pai da apresentadora Hebe Camargo), o poeta Cassiano Ricardo, a cantora Isaura Garcia e a dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho, entre outras personalidades e autoridades locais.

A pesquisa do autor teve início em 2003 como tema do trabalho de conclusão de curso, na faculdade de jornalismo. Em 2010, o estudo virou inspiração para o romance “P.L.1 - Nas Ondas da Imaginação”, que misturava personagens reais e fictícios, baseados em textos de radionovela. O livro “A Primeira Voz da Cidade” é a terceira obra literária de Ricardo Santos que também é coautor do livro “Comunicação Empresarial Estratégica - Práticas do Vale do Paraíba”, além de participação e consultoria em outras publicações.

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