Hamnet: Por que choramos tanto com este filme
Considerado o melhor filme do ano, 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet' mostra a força da arte na nossa vida
Da Redação, publicado em 14/02/2026 e atualizado hoje.Assisti ao filme 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet' (2026) nos cinemas e, quando olhei para o lado, vi um monte de gente chorando. Ufa, não era só eu que passava vergonha ali. A seguir, falo sobre a força do filme Hamnet (destaque no Oscar 2026). Um filme que mostra a força da arte para a nossa vida, para ultrapassarmos o luto. Um filme com a assinatura de Chloé Zhao (takes abertos, lindas paisagens, cenas 'paradas' e com a liberdade para atuação do ator). E com o protagonismo de Jessie Buckley (personagem Agnes), o grande nome desse filme. Acompanhe tudo aqui.
Filme fala sobre o quê?
Um filme (125 minutos de duração) para sentir. Com direção de Chloé Zhao (vencedora do Oscar por 'Nomadland') e estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, o longa tem provocado reações emocionais intensas. Mas essa propaganda de 'filme para chorar' pode ser ruim. Em alguns cinemas, funcionários entregavam lenços quando os espectadores chegavam à sala. Acredito que isso perde um pouco o encanto, o fator surpresa. Você pode entrar na sala já com essa expectativa.
Hamnet conta a história de um casal apaixonado no século XVI na Inglaterra. A mulher, bem conectada à natureza. O homem, apaixonado e ao mesmo tempo buscando um espaço para colocar em prática o seu trabalho. Eles têm três filhos, uma família linda. Mas o pai é mais ausente, trabalhando. Com o empurrão da própria esposa, que quer dar essa liberdade para ele. Uma tragédia, com a morte de um dos filhos, muda tudo. Assistimos à dor da mãe. E também à reação do pai com aquela tragédia.
Detalhe importante. Você vai ouvir o nome do pai somente aos 45 minutos do segundo tempo. Nem sabemos. Até ouvirmos a palavra Shakespeare. O filme dramatiza a vida familiar de William Shakespeare e sua esposa Anne Hathaway (Agnes) enquanto lidam com a morte de seu filho de 11 anos, Hamnet. Quando a tragédia atinge e Hamnet morre ainda jovem, isso inspira Shakespeare a escrever sua obra-prima, Hamlet.
A narrativa não é linear. O filme começa com o romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal). Vemos o casal jovem, apaixonado, construindo uma família. Hamnet nasce junto com sua irmã gêmea Judith, e a vida segue com suas alegrias e desafios cotidianos. Mas então, aos 11 anos, Hamnet morre - vítima de uma das muitas pragas que assolavam a Inglaterra do século XVI. E é a partir desse ponto que o filme mergulha profundamente no luto, na dor e em como a arte pode nascer do sofrimento mais insuportável.
Anne Hathaway não é aquela atriz de O Diabo Veste Prada? Calma. A atriz recebeu esse nome dos pais como uma homenagem. Anne Hathaway é o nome da esposa de William Shakespeare. Mas que no filme é chamada de Agnes.
É baseado em fatos reais?
Sim e não. A resposta é complexa. Hamnet Shakespeare foi uma pessoa real e o único filho homem de William Shakespeare e Anne Hathaway. Ele realmente nasceu em 1585 e morreu em 1596, aos 11 anos. O casamento entre Shakespeare e Anne Hathaway também é confirmado pelos registros históricos, assim como a distância física entre os dois durante longos períodos, já que o autor dividia sua vida entre sua casa e Londres, onde trabalhava no teatro.
Outro fato histórico importante é que Shakespeare escreveu Hamlet poucos anos depois da morte do filho. Na época, 'Hamnet' e 'Hamlet' eram grafias intercambiáveis do mesmo nome.
A ligação direta entre a morte de Hamnet e a criação de Hamlet é uma hipótese amplamente debatida, mas nunca foi, de fato, comprovada. Não existem cartas, diários ou relatos contemporâneos que confirmem que Shakespeare escreveu a tragédia como resposta ao luto.
Baseado no romance homônimo de Maggie O'Farrell (também é roteirista de Hamnet), o filme preenche as lacunas da história não contada com fatos não comprovados historicamente, simbolismos entre maternidade e luto.
Quem foi Hamlet?
Deu um branco aí? Tranquilo, vale lembrar que estamos falando da maior peça teatral de todos os tempos. Aliás, o filme é uma homenagem aos fãs de teatro.
Hamlet, a tragédia de Shakespeare, fala sobre vingança, dúvida, loucura e corrupção, centrada no príncipe da Dinamarca que busca vingar a morte do pai, assassinado pelo próprio tio, Cláudio, que se casou com sua mãe. O pai aparece para Hamlet como um fantasma. Como se William quisesse conversar (e se despedir, né?) com o filho Hamnet após sua morte.
Ser ou Não Ser, Eis a Questão. O resto é silêncio. Lembra-te de mim. São frases marcantes de Hamlet que encontramos no filme Hamnet.
O Fantasma em Hamlet, de William Shakespeare, é o espírito do falecido Rei Hamlet, pai do Príncipe Hamlet. Ele aparece nos primeiros atos para revelar que sua morte não foi natural. No ato final da peça, Hamlet é ferido pela espada envenenada de Laertes e morre após pedir ao amigo Horácio que conte sua história.
Elenco e direção do filme Hamnet
Jessie Buckley como Agnes Shakespeare entrega o que muitos críticos consideram a performance de sua carreira. Ou melhor: uma performance arrebatadora, poderosa,, incontestável. Ela é o nome do filme. Interpreta Agnes, cujo arco dramático começa como uma jovem com uma sensibilidade aguçada para a mística da natureza (sendo considerada uma bruxa pela cidade) e vai ganhando intensidade graças às cargas da maternidade e de um luto. Paul Mescal como William Shakespeare também está incrível. Assim como Noah Jupe, interpretando Hamlet na peça final do filme.
Aliás, curiosidade: você sabia que Noah Jupe (que interpreta Hamlet) é irmão do pequeno Jacobi Jupe (que interpreta Hamnet)? Incrível, né? Se parecem mesmo.
Chloé Zhao, que já conquistou o Oscar de Melhor Direção por 'Nomadland' em 2021, retorna com sensibilidade ainda maior. Os takes longos. O silêncio. O tempo para respirar e absorver o que é dito. Os planos abertos com liberdade para atuação dos atores (a cena de uma briga do casal, com o marido segurando as mãos da esposa e os dois chorando sentados). As paisagens que passam vida. É tudo fortíssimo. Ela utiliza planos estáticos com movimentos curtos e precisos. Câmera paciente, permitindo que o luto seja sentido.
E a grande revelação? A cereja do bolo? O carimbo de 'artista revelação' fica com o pequeno Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet. Que menininho incrível! Quem é essa criança, gente? Um artista, sem dúvida! Um personagem fundamental para o filme. O carisma, o brilho, o olhar apaixonado pelo pai. As lutinhas com a espada. O olhar para a irmã. A cena em que está parado e uma mosca pousa sobre o seu rosto. A cena em que se despede da mãe - já no teatro, como uma miragem escurecendo.
Sobre luto: quem perdeu algum parente próximo, sem dúvida deve sentir o filme de outra forma. E fico imaginando quem perdeu um filho. Aí nem deve ser recomendável assistir Hamnet. Porque é forte demais.
Qual mensagem o filme passa?
O filme explora como a dor insuportável pode ser transformada em arte imortal. Sobre maternidade, Agnes carrega o peso emocional do filme. Enquanto Will está em Londres trabalhando, ela cuida dos filhos, enfrenta o julgamento da comunidade (que a vê como bruxa), e depois precisa lidar com a perda mais devastadora que uma mãe pode enfrentar. Isso ainda dando forças ao marido para que trabalhasse.
O clímax emocional do filme acontece durante a estreia de 'Hamlet' no teatro. No palco. Ali temos o ápice, as grandes cenas. Agnes visualiza Hamnet no palco, visto anteriormente como sua visão de morte, agora movendo-se da tristeza para um sorriso antes de desaparecer nos bastidores através de um buraco como aquele de sua caverna mística na floresta que ela frequentava.
O que diz a crítica sobre Hamnet?
As notas do Rotten Tomatoes e IMDB (8 estrelas) são altíssimas. 5 ovos, 5 estrelas, nota mil. Tati Bernardi, colunista da Folha, introduziu assim sua coluna: 'Hamnet é um dos melhores filmes que já vi na vida'. 'Eu chorei de alagar o peito, de passar vergonha, de ressuscitar rinites, de seguir chorando por um tempo até chegar em casa', acrescentou.
Tati Bernardi conclui com a seguinte reflexão sobre o filme:
'Essa arte que apazigua a maior das dores e faz Agnes Shakespeare soltar uma gargalhada diante do palco (diante do filho prestes a morrer encarnado no palco) é a resposta mais audaz e deslumbrante perante a finitude. E nessa cena, nessa gargalhada infantil da mãe enlutada e envelhecida, na montanha de mãos de espectadores sobre a mão do ator, a gente conclui que a arte vai ainda mais longe: ela não só provoca, chama para a batalha, mas também vence a morte. Em uma das cenas mais tristes do filme, a mãe de Shakespeare diz para Agnes que ninguém vence a morte. Ela estava errada. Está tudo ali. Na gargalhada da mãe e da atriz', detalhou.
Entendeu o final do filme?
O final passa a seguinte mensagem: a possibilidade de que a dor pode ser transformada, que o amor pode transcender a morte através da arte, e que o luto, por mais devastador que seja, não precisa ser o fim da história. Pela primeira vez desde a morte de Hamnet, Agnes ri e sorri. Dá uma grande gargalhada na última cena do filme. Na cena em que o nó na garganta aperta. E que não conseguimos segurar as lágrimas.
No teatro, Agnes está inconformada num primeiro momento. Como assim você está usando o nome do meu filho? Ei, que peça é essa? Até que ela começa a se envolver com a história. Vê o marido interpretando o fantasma de Hamlet, o pai falecido. Vê Hamlet com um figurino e uma aparência que lembra muito sua criança. A espada nas mãos, os diálogos. Ali temos uma linguagem mais da época de Shakespeare, mais rebuscada. Mas ela vê a despedida do pai com o filho. Ela vê o filho estendendo as mãos para uma multidão. Todos dando as mãos para ele. Aliás, que cena com figurantes, hein? Que espetáculo! Tem uma velhinha chorando ao lado dela. Tem uma explosão de sentimentos.
Na sequência, Agnes enxerga o próprio filho. Bate no peito para se comunicar com ele. Enxerga o marido escondido no palco. Passa para ele uma mensagem de: 'entendi o que você fez; entendi essa homenagem'. Até que chegamos ao ápice. Agnes abre o sorriso. Dá uma sonora gargalhada. Fim de filme. O que é isso no seu olho? Pois é. Não deu para segurar.
Afinal, por que as pessoas choram tanto assistindo esse filme?
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